Duas Justiças no Trânsito de MT: Como a Renda Define Quem Vai para a Cadeia
O Código Penal e o Código de Trânsito Brasileiro são os mesmos para todos os cidadãos, mas o desfecho de um crime ao volante em Mato Grosso muda drasticamente dependendo do saldo bancário do réu. Julgamentos recentes no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) expõem um abismo jurídico: enquanto réus de alta poder aquisitivo conseguem penas brandas e regimes abertos, motoristas de baixa renda enfrentam o rigor máximo da lei e o início imediato do cumprimento da pena em regime fechado.
O Peso do Dinheiro na Defesa Jurídica
A disparidade nas sentenças não reflete apenas a gravidade dos acidentes, mas o acesso a defesas técnicas altamente especializadas. Réus ricos contratam bancas de advocacia renomadas, capazes de prolongar processos por anos, desqualificar o dolo eventual (intenção de matar) para homicídio culposo (sem intenção) e explorar cada brecha recursal para evitar a prisão. Por outro lado, réus de classes vulneráveis dependem de defesas com menos estrutura, resultando em condenações rápidas e severas.
Casos de Elite: Penas Brandas e Liberdade
Dois casos de grande repercussão em Cuiabá ilustram como rés com recursos financeiros conseguiram evitar o regime fechado, mesmo em episódios com mortes e indícios de embriaguez:
- Dra. Letícia Bortolini: A médica atropelou e matou o verdureiro Francisco Lúcio Maia em 2018. Após anos de recursos e discussões sobre o dolo do ato, ela foi condenada a apenas 3 anos e 2 meses de detenção. A pena permite o cumprimento em regime aberto ou substituição por restritivas de direitos, fazendo com que a ré nunca pisasse em uma penitenciária.

- Rafaela Screnci da Costa Ribeiro: A bióloga, envolvida no trágico atropelamento em frente à Valley Pub que resultou em duas mortes e um ferido grave, enfrentou o júri popular em 23 de junho de 2026. Mesmo condenada, a sentença fixada foi de 6 anos de prisão em regime inicial semiaberto, permitindo que ela iniciasse o cumprimento da pena fora do regime de isolamento total.

O Lado Vulnerável: 16 Anos e Prisão Imediata
O contraste com a realidade de quem não possui o mesmo aparato financeiro ficou evidente apenas dois dias após o julgamento da bióloga:
- Deocimar Silva da Guia: Julgado em 25 de junho de 2026 pelo Tribunal do Júri de Cuiabá, o motorista foi condenado a 16 anos de reclusão e 6 meses de detenção. Ele respondeu pela morte do empresário Célio Marcos de Oliveira em um acidente na MT-251, ocorrido em 2021.
- A Diferença de Rigor: Deocimar dirigia a 115 km/h sob o efeito de álcool e invadiu a pista contrária. A dinâmica do crime foi considerada dolo eventual grave. Sem o mesmo poder de barganha recursal e o suporte financeiro das rés citadas, Deocimar recebeu uma pena quase três vezes maior que a da bióloga e foi enviado direto para o regime inicialmente fechado.
A Seletividade Penal e o Sentimento de Impunidade
Especialistas em direito penal apontam que o sistema judiciário brasileiro sofre de “seletividade”. A tipificação do crime (se o motorista assumiu ou não o risco de matar) muitas vezes é moldada pela capacidade da defesa de produzir laudos assistenciais e convencer os magistrados.
Para as famílias das vítimas de menor poder aquisitivo, como a do verdureiro Francisco Maia, o sentimento que fica é de que a vida na periferia vale menos perante a lei. A estrada da Chapada e as avenidas de Cuiabá ligam os mesmos destinos, mas, na hora de prestar contas com a Justiça, as rotas tomadas por ricos e pobres seguem direções completamente opostas.
Redação
Mtcontexto.












