Presidente do TCE afirma que Estado é “rico para poucos e pobre para muitos”

O presidente do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo, classificou Várzea Grande e Cuiabá como um “bolsão de miséria” e afirmou que serão necessários bilhões de reais em investimentos, inclusive com recursos nacionais e internacionais, para enfrentar os problemas estruturais da região.

A declaração foi dada nessa quarta-feira (12.08), durante audiência pública realizada pela Prefeitura de Várzea Grande para apresentação da atualização do Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB).

Ao comentar a histórica falta de água em Várzea Grande, Sérgio Ricardo afirmou que o problema atravessa décadas e responsabilizou sucessivas gestões pela situação atual.

“Mais de um século e meio de Várzea Grande sem água. Isso vai chegar um momento que vai ter que acabar”, declarou.

Segundo o presidente, o TCE-MT pretende acompanhar e contribuir com as ações destinadas a solucionar a crise de abastecimento. Ele afirmou que analisou o estudo elaborado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) para o município e disse que o diagnóstico apresentado aponta uma situação de “caos”.

“A Fipe, como não poderia ser diferente, descreve o caos. Várzea Grande vive um caos. E exatamente por falta de gestões que não tiveram a responsabilidade de cuidar do básico. Água é saúde, água é alimentação e não se tem”, criticou.

Sérgio Ricardo também chamou atenção para o horizonte previsto no planejamento do saneamento, que estabelece ações até 2060. Para ele, apesar da necessidade de planejamento de longo prazo, a situação exige esforço conjunto e participação direta do Governo do Estado.

“Tem que haver um grande esforço, um esforço conjunto de Estado, principalmente do Estado. Várzea Grande é uma cidade pobre. Várzea Grande é um bolsão de miséria, como Cuiabá é um bolsão de miséria”, afirmou.

O presidente do TCE ampliou a crítica para os municípios da Baixada Cuiabana e sustentou que a riqueza produzida por Mato Grosso não se reflete nas condições de vida de parcela significativa da população.

“Cuiabá e Várzea Grande, os 13 municípios da Baixada Cuiabana representam um bolsão de miséria do Estado de Mato Grosso. Basta ver os números”, declarou.

Sérgio Ricardo afirmou que Cuiabá e Várzea Grande concentram cerca de 150 mil pessoas abaixo da linha da pobreza e fez uma avaliação contundente sobre a desigualdade social no Estado.

“Tem gente que não almoçou hoje, tem gente que não vai jantar e tem gente que não vai tomar café e vai ser a semana toda assim. Mato Grosso é um Estado rico para poucos e pobre para muitos”, disse.

“Não é com milhões, é com bilhões”

Segundo Sérgio Ricardo, o plano de metas “Mato Grosso 2050”, elaborado pelo Tribunal de Contas, possui um capítulo específico destinado aos 13 municípios da Baixada Cuiabana.

Ele defendeu que a região receba tratamento diferenciado e seja alvo de uma mobilização envolvendo forças políticas estaduais e nacionais.

“Vai ter que haver um ataque, como se a Baixada Cuiabana fosse um outro Estado. Tem que existir aqui um ataque de todas as forças políticas nacionais e estaduais”, declarou.

Ao citar especificamente Várzea Grande, o conselheiro mencionou dívidas, precatórios e bloqueios financeiros como obstáculos para que o município consiga enfrentar sozinho seus problemas estruturais.

“Você vê Várzea Grande: Várzea Grande deve precatório, deve isso, deve aquilo. Cuiabá também. Nós temos, e aí aqui, as contas de Várzea Grande continuam bloqueadas. E isso é culpa de uma história de 158 anos”, afirmou.

Questionado se defendia uma espécie de força nacional direcionada à Baixada Cuiabana, Sérgio Ricardo confirmou e voltou a mencionar as condições socioeconômicas da região.

“É uma força nacional. É isso que eu estou te falando. Tem que pegar Cuiabá e Várzea Grande, esses 13 municípios, como exatamente o que são. Aqui nós temos o bolsão de miséria”, respondeu.

Para o presidente do TCE, a dimensão dos problemas acumulados exige uma quantidade de recursos muito superior à capacidade financeira dos municípios.

“Isso tem que acabar e não adianta com conversa fiada. Não adianta. Nós temos Várzea Grande e Cuiabá que há necessidade de uma força de dinheiro nacional e até internacional. Aqui não é com milhões, é com bilhões”, concluiu.