Delegado afirma que investigada cursava enfermagem e deveria ter acionado o Samu
A jovem de 25 anos que admitiu ter descartado a filha recém-nascida em uma lixeira de um condomínio, no bairro Centro Sul, em Várzea Grande, será indiciada inicialmente por homicídio, enquanto a Polícia Civil aguarda a conclusão dos exames complementares. A perícia constatou que a menina, nascida prematuramente com aproximadamente seis meses de gestação, nasceu com vida e respirou por um curto período.
O delegado Rogério Gomes, da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), explicou, em coletiva de imprensa nessa quinta-feira (27.08), que o enquadramento criminal poderá ser alterado ou ampliado caso os exames indiquem, por exemplo, o uso de alguma substância abortiva.
“Ela vai responder pelo crime de homicídio, porque, como a criança nasceu com vida, tinha ali uma vida. E ela, na condição de genitora e mãe, tem o dever legal de proteção, guarda e vigilância”, afirmou.
Segundo o delegado, outro ponto considerado na investigação é que a mulher cursava enfermagem, ainda que estivesse na fase inicial da formação. Para a Polícia Civil, ela tinha condições de compreender que deveria procurar ajuda após o parto.
“Ela não pode simplesmente descartar, achando que já estava morta, sobretudo pelo fato de que nós apuramos que ela é uma pessoa que tem um certo nível de conhecimento, faz inclusive um curso de enfermagem. Ela saberia muito bem como proceder. Chamar um socorro, chamar um Samu, chamar um vizinho”, declarou Rogério Gomes.
A recém-nascida era do sexo feminino, tinha aproximadamente 26 semanas de gestação, o equivalente a seis meses, e pesava 750 gramas. Conforme o laudo necroscópico, a menina não apresentava lesões, sinais de asfixia ou indícios de violência física, mas os exames constataram que ela respirou após nascer.
A Polícia Civil ainda não estabeleceu a causa da morte. Também permanece sob investigação se o parto prematuro ocorreu espontaneamente ou se foi provocado pelo uso de alguma substância. Segundo o delegado, os exames complementares podem levar de um a três meses para serem concluídos.
A DHPP chegou à jovem após analisar imagens das câmeras de segurança do condomínio e da área externa. Os investigadores identificaram uma pessoa com as características físicas da moradora, descartando um objeto semelhante ao encontrado posteriormente na lixeira.
Inicialmente, a jovem negou envolvimento. Após ser intimada e comparecer à delegacia, porém, foi confrontada com as imagens e admitiu que havia descartado a criança e que era a mãe da recém-nascida.
Em depoimento, ela afirmou que suspeitava da gravidez, mas não tinha certeza porque continuava apresentando sangramentos. A mulher não realizou acompanhamento pré-natal e alegou que entrou inesperadamente em trabalho de parto durante a madrugada, enquanto o marido dormia.
A investigada, que já tem um filho de aproximadamente 3 ou 4 anos, relatou que deu à luz sozinha e tentou agir rapidamente para impedir que a outra criança presenciasse a situação. Segundo ela, o descarte ocorreu em razão do desespero e do estado emocional após o parto.
O marido também prestou depoimento e, conforme o delegado, confirmou em linhas gerais a versão da esposa. Ele afirmou que suspeitava da gravidez, mas somente descobriu que a mulher havia descartado a recém-nascida depois que ela compareceu à delegacia e confessou.
A jovem negou ter ingerido substâncias abortivas e concordou voluntariamente em realizar exames para comprovar o parto recente, coleta de material genético para DNA e outros procedimentos periciais. Ela permanece em liberdade porque, segundo a DHPP, colaborou com a investigação, não apresentou intenção de fuga e não tentou atrapalhar as apurações.
Rogério Gomes ressaltou que a situação poderá mudar caso surjam novos elementos. Depois que o inquérito for encaminhado, o Ministério Público também poderá avaliar eventual pedido de prisão ou aplicação de medidas cautelares.












