O julgamento chegou ao fim no começo dessa madrugada de hoje (2), após três dias de depoimentos, interrogatórios e debates entre Ministério Público e defesas.

O Tribunal do Júri condenou Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas pela participação no assassinato do advogado Roberto Zampieri, executado a tiros em dezembro de 2023, em Cuiabá. O julgamento chegou ao fim hoje (2), após três dias de depoimentos, interrogatórios e debates entre Ministério Público e defesas.

Antônio foi condenado a 21 anos, 10 meses e 15 dias de prisão. Hedilerson recebeu pena de 25 anos, enquanto Caçadini foi sentenciado a 21 anos, os 3 foram condenados pelo crime de homicídio triplamente qualificado.

O julgamento foi marcado por versões completamente distintas sobre o assassinato. Enquanto o Ministério Público sustentou que Zampieri foi vítima de uma execução planejada e encomendada, as defesas tentaram afastar ou reduzir a responsabilidade de cada um dos réus.

Apontado pela acusação como o homem que efetuou os disparos contra Zampieri, Antônio Gomes da Silva admitiu em plenário ter matado o advogado.

Durante o interrogatório, ele relembrou o depoimento prestado ao delegado Edson Pick ainda durante as investigações e reafirmou: “Matei mesmo e, se fosse preciso matar, mataria de novo porque ele realmente é uma desgraça.”

Ao longo de sua fala, Antônio apresentou uma tese segundo a qual teria agido por conta própria, movido por uma revolta pessoal contra a corrupção no país.

Ele contou que passou a acompanhar mais intensamente a política a partir de 2021 ou 2022 e que os acontecimentos relacionados à Lava Jato e à saída de Sergio Moro teriam despertado nele a convicção de que o país estava sendo tomado pela corrupção.

Segundo sua versão, ainda em Belo Horizonte, recebeu de uma pessoa uma fotografia de Roberto Zampieri e ouviu que o advogado seria corrupto e teria ligações com integrantes do Judiciário.

Antônio se recusou a dizer quem entregou a fotografia. “Cada um faz a sua defesa”, afirmou.

Ele contou que veio a Mato Grosso, conseguiu o telefone pessoal de Zampieri e inventou a história de que um sobrinho que morava no Texas pretendia comprar terras no Estado. Com o pretexto, conseguiu se aproximar do advogado. Segundo Antônio, Zampieri chegou a recebê-lo no escritório.

Na ocasião, conforme o próprio réu admitiu, estava com uma arma dentro da mochila e chegou a pensar em matar o advogado ali mesmo, mas desistiu porque não sabia quantas pessoas estavam no prédio e nas proximidades. Depois, afirmou ter feito uma espécie de reconhecimento da região, chegando a identificar a existência de uma unidade da Polícia Militar perto do escritório.

Antônio também contou ter pago R$ 380 para que um advogado de Cuiabá levantasse documentos e processos relacionados a Zampieri. Disse que precisava ter certeza de que não mataria “uma pessoa inocente”.

Em outro momento, afirmou que pretendia levar Zampieri até uma propriedade rural e assassiná-lo no local. O plano não teria sido executado naquela ocasião porque quem acompanhou Zampieri até a fazenda foi um amigo do advogado.

O réu também admitiu que algumas ideias de disfarces e estratégias foram inspiradas em filmes, citando O Poderoso Chefão.

Em um dos momentos mais fortes do depoimento, declarou: “Sou cidadão comum que tem vergonha na cara e coragem de matar. Eu sou homem!”

Também afirmou: “Estou cumprindo a cadeia por um corrupto que eu mandei para o inferno.”

E acrescentou: “Se esse homem não estivesse embrenhado no labirinto da corrupção, ele estaria vivo e eu estaria solto.”

As acusações feitas contra Zampieri foram apresentadas pelo próprio réu como parte de sua versão defensiva e não significam que tenham sido comprovadas no julgamento.

Disse que também mataria desembargador

Antônio foi além ao ser questionado pelo advogado Nilton Ribeiro. Ao falar sobre sua visão a respeito da corrupção, afirmou que Brasília deveria virar um “cemitério para corrupto”.

“Nosso Brasil está sucateado, doutor. Precisa fazer daquela Brasília ali um cemitério. Passar um trator naquela desgraça. Fazer um cemitério para corrupto ali. Começar de cima para baixo. […] Eu sou esse cara aqui que o senhor está vendo, não tenho dó de matar corrupto”, afirmou.

Na sequência, foi questionado se também mataria o desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso Sebastião de Moraes Filho. “Doutor, se eles tivessem me dado essa tarefa eu pegava”, respondeu.

Diante da pergunta direta se mataria o desembargador, completou: “Ah, sem dúvida! Eu tinha que provar que ele era corrupto.”

Perguntado se poderia matar Sebastião junto com Zampieri, afirmou: “Fazia o pacote.”

Sebastião não é réu no processo do assassinato. O nome do magistrado surgiu posteriormente em investigações abertas a partir de informações encontradas no celular de Zampieri.

O desembargador ficou afastado do TJMT durante as apurações sobre suspeitas de venda de decisões judiciais e foi aposentado compulsoriamente ao completar 75 anos. As investigações relacionadas ao magistrado tramitam separadamente do processo pela morte do advogado.

Hedilerson diz que Antônio roubou sua arma

Hedilerson Fialho Martins Barbosa, instrutor de tiro e despachante bélico, apresentou versão completamente diferente da sustentada pelo Ministério Público.

Ele admitiu que conhecia Antônio, mas disse que a relação entre os dois surgiu em um clube de tiro, onde ajudava o colega com orientações para obtenção do registro de CAC. “Eu sou um professor, minha vida é ensinar. Eu não sou aquele cara tático, não tenho vivência, só sei ensinar”, afirmou.

Hedilerson sustentou que veio a Cuiabá para disputar a competição de tiro W2C Open, realizada entre os dias 5 e 9 de dezembro de 2023. Ele admitiu ter trazido para Mato Grosso uma pistola Taurus 9 mm, mas negou ter entregado a arma a Antônio.

Segundo sua versão, deixou o armamento guardado em uma maleta no hotel e saiu para comer com Antônio. Foi nesse intervalo, sustenta, que Antônio teria pegado a arma sem seu conhecimento e cometido o crime. “Traiu a minha confiança, se aproveitou de uma certa confiança que eu tinha com ele”, afirmou.

Em outro momento, reforçou: “O Antônio mentiu pra mim, me traiu.”

Hedilerson confirmou aos jurados que saiu do hotel acompanhado de Antônio e que o colega carregava uma caixa, embora tenha dito desconhecer o conteúdo.

Também relatou que, quando Antônio retornou ao hotel, estava suado como se tivesse feito uma longa caminhada.

Hedilerson afirmou que nunca conheceu Zampieri, nunca foi ao escritório do advogado e só descobriu quem era a vítima depois de já estar preso.

“Missão cumprida”

Outro ponto explorado no julgamento foi a mensagem “missão cumprida”, enviada por Hedilerson ao coronel Caçadini. A acusação utilizou a comunicação como um dos elementos para sustentar o vínculo entre os acusados.

Hedilerson, entretanto, apresentou outra explicação. Disse que “missão cumprida” é um jargão utilizado entre militares e pessoas ligadas às atividades das quais participava.

Ele confirmou ligação com a Frente Ampla Patriótica (FAP), grupo liderado por Caçadini e criado após os atos de 8 de janeiro de 2023.

Hedilerson disse que colaborava com a edição de vídeos, fotos e divulgação de materiais do grupo e que chegou a participar de manifestações em outros estados com despesas custeadas pela organização. A FAP, segundo ele, também patrocinou sua viagem a Cuiabá para a competição de tiro.

Durante o depoimento, Hedilerson respondeu às perguntas dos próprios advogados e dos jurados, mas não respondeu aos questionamentos do Ministério Público nem do juiz.

Choro e família

O interrogatório de Hedilerson também teve momentos emocionais. Ele chorou diversas vezes ao falar dos filhos e disse que uma das crianças, de 5 anos, ainda não sabe que o pai está preso e acredita que ele esteja viajando. “Eu não consigo falar de família sem chorar”, declarou.

Hedilerson disse ainda que a família enfrenta dificuldades financeiras, reclamou da falta de contato com os filhos e contou que a mãe morreu enquanto ele estava preso, em setembro de 2024.

“Perdi a confiança nas pessoas”, afirmou.

Caçadini nega conhecer Zampieri

O terceiro réu, Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, de 71 anos, coronel aposentado do Exército, negou qualquer participação no assassinato. Ele afirmou não possuir antecedentes criminais e respondeu às perguntas durante seu interrogatório.

Caçadini admitiu conhecer Antônio e Hedilerson por meio da Frente Ampla Patriótica, mas negou ter qualquer relação com Roberto Zampieri. Disse que nunca conheceu nem sequer tinha ouvido falar no advogado antes da repercussão do assassinato.

Segundo ele, a FAP tinha como objetivo fazer oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de maneira “ordeira”.

Caçadini contou que Antônio chegou a tratar com ele sobre uma possível reforma em seu escritório, mas disse que, depois disso, não voltou a manter contato relevante com o executor confesso.

Também afirmou ter vindo quatro vezes a Mato Grosso ao longo de 2023 para participar de encontros da FAP.

Sobre a viagem feita no período do assassinato, sustentou que veio a Cuiabá para uma reunião do grupo e também para procurar uma caminhonete usada. Depois, seguiu para Rondonópolis e posteriormente para Mato Grosso do Sul.

R$ 70 mil

Durante o interrogatório, Caçadini também tentou explicar movimentações financeiras investigadas no caso. Ele negou que empresas de sua propriedade fossem de fachada e afirmou que um depósito de R$ 70 mil realizado em Cuiabá teve origem na venda de equipamentos e no recebimento de dividendos.

Segundo o coronel, o dinheiro seria usado para comprar um veículo.

A versão foi apresentada para afastar a interpretação da acusação de que movimentações financeiras pudessem estar relacionadas ao pagamento pelo assassinato.

Promotor critica ataques contra Zampieri

Antes da retomada do segundo dia de julgamento, o promotor de Justiça Vinícius Gahyva já havia antecipado que o Ministério Público reagiria à estratégia das defesas de concentrar parte dos argumentos na vida de Roberto Zampieri.

Para Gahyva, eventuais críticas à vítima não interferem na discussão sobre a autoria e participação dos réus.

“A figura da vítima pouco importa para o desenvolvimento de uma tese. Se a pessoa nega autoria, e nega envolvimento no crime, o que importa se a vítima era daquele jeito ou desse jeito? Não faz diferença alguma”, afirmou.

O promotor acrescentou: “Justificar esse tipo de situação atacando a figura da vítima nada mais é que uma retórica que se coloca a serviço da injustiça, da impunidade e daquilo que a sociedade não deseja.”