Receita Federal ainda registra a empresa como ATIVA na Rua Ametista, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá — o mesmo imóvel onde a Operação Agro-Fantasma cumpriu mandado de busca e onde, segundo o inquérito, câmeras recuperadas pela perícia flagraram a retirada de caixas de documentos na véspera da operação. No local, a reportagem encontrou a fachada de uma construtora sem qualquer relação com o caso.
Quem procura hoje a sede da Imaculada Agronegócios Ltda no endereço que a própria empresa declara à Receita Federal não encontra nenhum vestígio dela. Na Rua Ametista, nº 07, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá, o muro alto coroado de concertina exibe outro nome, de uma construtora que nada tem a ver com o caso. Nenhuma placa, nenhuma referência, nenhum funcionário da empresa que movimentou dezenas de milhões de reais no agronegócio de Mato Grosso — e que deixou para trás, segundo o inquérito da Operação Agro-Fantasma, um passivo de R$ 57,7 milhões e quatro indiciados.

Imóvel na Rua Ametista, Bosque da Saúde, em Cuiabá, nesta quarta-feira (13): no endereço que a Imaculada declara como sede, a fachada é de outra empresa, sem relação com o caso. (Foto: reportagem)
O contraste está documentado. Consulta pública ao cadastro nacional de pessoas jurídicas, feita pela reportagem nesta quarta-feira (13), mostra a Imaculada com situação cadastral ATIVA, sede na Rua Ametista, 07, Quadra 28, Lotes 7, 9 e 11, CEP 78050-100, capital social de R$ 1 milhão e um único sócio-administrador desde 24 de março de 2026: Pedro Henrique Cardoso, indiciado por estelionato em continuidade delitiva, associação criminosa e fraude processual. Formalmente, a empresa existe e mora ali. Fisicamente, não está em lugar nenhum que a reportagem tenha conseguido localizar.
O mesmo imóvel das câmeras
O endereço não é um detalhe burocrático — é cenário central do inquérito. Foi nesse imóvel que a Polícia Civil cumpriu mandado de busca e apreensão em 4 de março de 2026, apreendendo documentos, notebooks, pendrive e o DVR das câmeras de segurança. E foi das câmeras desse mesmo imóvel que a perícia recuperou as imagens apagadas que mostram, na noite anterior à operação, caixas de documentos sendo retiradas da empresa e carregadas em carros particulares, além de indivíduos vasculhando uma lixeira — a madrugada que rendeu a Pedro Henrique Cardoso e Mário Sérgio Cometki Assis o indiciamento por fraude processual, como revelou reportagem anterior. O disco rígido do equipamento foi formatado às 9h59 do dia da busca, durante a diligência, e um relato colhido em oitiva dá conta de que documentos foram “retirados, destruídos e queimados”.
Cinco meses depois, o imóvel trocou de ocupante. A construtora que hoje exibe sua marca no muro da Rua Ametista não guarda nenhuma relação com a Imaculada, com seus sócios ou com os fatos investigados — apenas passou a operar no ponto onde a empresa indiciada mantinha sua sede.
Uma devedora de R$ 57,7 milhões sem endereço
O sumiço físico da empresa fecha o ciclo que o inquérito descreveu no papel. Em interrogatório, Pedro Henrique Cardoso afirmou que a Imaculada faturava R$ 50 milhões por mês antes da operação — cifra que o delegado contrastou com o capital social de R$ 1 milhão registrado no contrato. O relatório final, ao qual a reportagem teve acesso, pergunta onde estão os valores obtidos e responde: “não estão disponíveis para ressarcimento”, com o entendimento de que “todas as ações foram premeditadas, e os valores pulverizados”. Agora, a empresa que deveria responder por dívidas de R$ 57,7 milhões junto a produtor rural, cooperativas de crédito e fornecedores não tem sequer um endereço físico onde ser encontrada — embora siga ativa no papel, apta a emitir notas e contratar.
Para os credores, o dado é concreto: citações, cobranças e execuções dirigidas à sede registrada da Imaculada baterão no portão de outra empresa. Para a investigação, é mais uma camada do padrão descrito pelo delegado — a de uma estrutura empresarial que existiu intensamente enquanto captava grãos e crédito, e foi se desmaterializando à medida que as contas venceram: primeiro os pagamentos, depois os documentos, depois as imagens das câmeras, agora o próprio endereço. Os autos estão com o Ministério Público de Mato Grosso, a quem cabe decidir pela denúncia. Não há condenação, vigora a presunção de inocência, e os indiciados negam os crimes, atribuindo a inadimplência a dificuldades financeiras.
Nota de transparência: reportagem baseada em visita ao endereço em 13/08/2026, em consulta pública ao cadastro da Receita Federal na mesma data e no relatório final do inquérito da Operação Agro-Fantasma, ao qual a reportagem teve acesso. A empresa que atualmente ocupa o imóvel não possui qualquer relação com os fatos. O espaço para manifestação das defesas dos indiciados permanece aberto.












