Vídeo divulgado pelo advogado Rodrigo Pouso Miranda, que representa a família da vítima, mostra acusado de feminicídio cobrando gastos da companheira dias antes do crime em Lucas do Rio Verde
Imagens das câmeras da casa foram publicadas no Instagram para contestar laudo que apontou inimputabilidade do acusado; ação penal está suspensa à espera de nova perícia
Lucas do Rio Verde (MT), 4 de setembro de 2026 — O advogado da família de Gleici Keli Geraldo, 42 anos, morta a facadas pelo companheiro em 24 de junho de 2025, divulgou nesta semana em suas redes sociais um vídeo com imagens das câmeras internas da residência do casal, gravadas nos dias que antecederam o crime. Segundo Rodrigo Pouso Miranda, que atua como assistente de acusação, as imagens demonstram que o ataque “não foi surto” e teve motivação ligada a dinheiro e controle.
Gleici, cabeleireira e terapeuta capilar, foi morta com 21 facadas enquanto dormia, na casa da família, no bairro Bandeirantes. A filha do casal, de 7 anos, foi atingida por 8 golpes na mesma cama e sobreviveu após internação em UTI em Cuiabá. O companheiro, Daniel Bennemann Frasson, engenheiro agrônomo, foi preso em flagrante na própria casa e denunciado pelo Ministério Público por feminicídio consumado e feminicídio tentado, ambos qualificados. Ele responde ao processo na 2ª Vara Criminal de Lucas do Rio Verde.
O que o vídeo mostra
Com 2 minutos e 23 segundos, o vídeo reúne trechos das câmeras da sala da residência. Em cenas anteriores ao crime, o acusado aparece cobrando da companheira os gastos da casa: as legendas registram referências a “R$ 2.200”, a um par de botinas, a uma antena de internet e a frase “foi dinheiro tudo aí”, dita por ele. Não há reação agressiva da vítima nas cenas; em outro trecho, ela aparece dizendo “Dani, pelo amor de Deus” e “já chega de trauma”.
O material inclui ainda a reprodução de uma mensagem de WhatsApp enviada à vítima dias antes, pedindo que ela escondesse as facas da casa “a hora que ele for dormir”, e imagens da manhã do crime, em que o acusado aparece caminhando pela sala antes de sair do enquadramento e retornar com manchas de sangue. O vídeo termina com a cartela: “Não teve nada de loucura, foi tudo premeditado”.
A versão da família
De acordo com a assistência de acusação, testemunhas ouvidas no inquérito relataram que o acusado disse, dois dias antes do crime, que pensava em matar a companheira e a filha, e que uma consulta psiquiátrica havia sido marcada para a tarde do próprio dia 24 de junho. Ainda segundo os depoimentos, ele culpava Gleici por ter deixado o emprego numa fazenda e “perdido um milhão”, controlava as despesas da casa e se irritava com o crescimento profissional dela, que preparava o lançamento de uma marca de produtos capilares.
“As câmeras registraram o que essa família vivia. Cobrança por cada gasto, humilhação e um aviso claro de que ele ia matar as duas. Ele reclamou de ter sido avisado e, na manhã seguinte, pegou a faca antes da consulta com o psiquiatra. Isso não é surto, é decisão”, afirmou Rodrigo Pouso Miranda. [Declaração sugerida — ajustar ou substituir pela fala real do advogado.]
O advogado também destacou que, meses após o crime, familiares do acusado obtiveram sua interdição judicial em outra comarca e, por meio da curadora, pediram no inventário da vítima o reconhecimento da condição de meeiro e herdeiro, com reserva de metade dos bens e dos aluguéis. A família de Gleici contesta o pedido e informou que ingressará com ação de exclusão por indignidade, prevista no artigo 1.814 do Código Civil para quem atenta contra a vida do autor da herança ou de seus descendentes.
Laudo contestado e processo suspenso
A defesa do acusado sustenta que ele não tinha capacidade de compreender o caráter ilícito da conduta. Laudo da Perícia Oficial (Politec), concluído em setembro de 2025, apontou doença mental psicótica em atividade e inimputabilidade, o que levou o juízo a substituir a prisão preventiva por internação provisória em clínica psiquiátrica.
A homologação do laudo, porém, foi anulada em dezembro de 2025, após impugnação do Ministério Público e recurso da assistência de acusação. Os promotores Samuel Telles Costa e Osvaldo Moleiro Neto sustentaram que a conclusão se baseava em “hipóteses diagnósticas, sem observação clínica prolongada”, que não foram feitos exames toxicológicos para descartar psicose induzida por substâncias e que o réu demonstrou, após o crime, “funções executivas complexas” incompatíveis com a alegada perda total de entendimento. “A inimputabilidade penal exige certeza técnico-científica, e não meras probabilidades”, afirmaram. O juiz determinou nova perícia por junta de três psiquiatras forenses, com avaliação de possíveis “ilhas de lucidez” e da hipótese de simulação.
O exame foi realizado em janeiro de 2026. Segundo noticiado pela imprensa local no início de julho, o parecer da junta, entregue em 22 de junho, teria confirmado o diagnóstico de esquizofrenia e transtorno bipolar e a conclusão de inimputabilidade. [CONFIRMAR NOS AUTOS antes de publicar: o laudo da junta e sua eventual homologação não constam na cópia integral da ação penal gerada em 30/07/2026. Se confirmado, este parágrafo e o título precisam refletir que o vídeo foi divulgado após a segunda perícia.] A família de Gleici afirma que as imagens das câmeras — gravadas antes, durante e depois do ataque — não foram consideradas em nenhuma das duas perícias e devem ser examinadas pelo juízo.
A ação penal está suspensa desde 14 de janeiro de 2026 e a audiência de instrução, marcada para o dia seguinte, foi cancelada. Caso a inimputabilidade seja afastada, o acusado será julgado pelo Tribunal do Júri; caso confirmada, a tendência é a imposição de medida de segurança, com internação por tempo indeterminado. O acusado está internado em clínica psiquiátrica particular custeada pelo Estado desde o fim de 2025, por falta de vaga em hospital público.
O processo tramita em segredo de justiça. [A reportagem procurou a defesa do acusado — inserir resposta ou registrar ausência de retorno antes de publicar.]
Em novembro de 2025, ao comentar o primeiro laudo, a filha mais velha de Gleici escreveu nas redes sociais: “Não banalizo saúde mental de forma alguma, mas usá-la como saída para justificar um crime tão cruel é, no mínimo, um insulto.” A criança sobrevivente ficou 22 dias internada em hospital de Cuiabá e segue em acompanhamento psicológico, psiquiátrico, neurológico e cardiológico.
Guarda e inventário
A filha sobrevivente está sob a tutela da irmã mais velha, de 25 anos, biomédica, nomeada pela Justiça em julho de 2025, na mesma decisão que suspendeu o poder familiar do pai. A irmã também é inventariante dos bens deixados pela mãe.
Gleici morava havia cerca de seis anos em Lucas do Rio Verde, para onde se mudou de Tangará da Serra acompanhando o companheiro. Mantinha um salão e clínica de terapia capilar na cidade.












